Como as eleições nos EUA podem afetar o mercado de criptomoedas?

As eleições nos EUA estão marcadas para 3 de novembro, e embora ainda exista tempo para reviravoltas, e até mesmo postergação por conta da pandemia, tudo indica que o duelo será entre o atual presidente Trump, e Joe Biden, vice de Obama em ambos os mandatos. Como as eleições afetam o Bitcoin e os mercados de criptomoedas?

Esta pergunta é extremamente delicada, pois envolve não só as decisões de políticas econômicas, que diferem entre os Republicanos (Trump) e Democratas (Biden), mas também as questões sociais e relações internacionais. Ao contrário do mercado de ações, por exemplo, que reage diretamente à incentivos e estímulos, as criptomoedas não possuem um papel fixo, ou um mercado estabelecido.

Alguns dizem que o Bitcoin tem características mais próximas ao ouro, por conta da escassez, portanto, deveria ser um ativo de proteção. Outros apontam para o potencial de crescimento do Ethereum, altcoins, e da própria Lightning Network do Bitcoin, logo deveriam reagir como ações de tecnologia, ou setores de alto crescimento.

No meio de tanta incerteza, um evento de tanto impacto quanto às eleições da maior potência econômica poderá ser decisivo, especialmente neste momento de pandemia, conflitos com a China, instabilidade social, e resultados insatisfatórios dos pacotes de estímulo econômicos. Vamos tentar analisar separadamente cada um dos efeitos da eleição nos EUA, buscando entender seus impactos nos mercados de criptomoedas.

O que Trump fez pelas criptomoedas?

Poucos teriam imaginado em 2017 que Trump iria coordenar um esforço para conter a alta das criptomoedas com as agências reguladoras CFTC de futuros, SEC de mercados mobiliários, e o próprio Tesouro Nacional. Este movimento culminou com o lançamento dos contratos futuros de Bitcoin nas bolsas reguladas CME e CBOE.

Se havia alguma dúvida sobre esta atuação, mesmo após o caso ter sido relatado pelo ex-presidente da CFTC Jay Clayton, um movimento ainda mais claro e direto foi revelado por John Bolton, ex-consultor de segurança nacional do governo. Trump teria dito ao secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, para “ir atrás do Bitcoin” em maio de 2018.

Em suma, não há o menor indício de Trump sendo favorável às criptomoedas, por mais que algumas notícias pontuais tenham sido positivas ao longo de seu mandato. Houve, por exemplo, um avanço na regulação dos custodiantes, que culminou recentemente com a recente autorização para que bancos atuem no segmento.

O dia em que Trump fez o Bitcoin desabar

Em 11 de julho de 2019 Trump resolveu colocar as garras de fora, e pela primeira vez falou aberta e diretamente sobre criptomoedas, afirmando que são muito voláteis, e “baseadas em nada”. Completou dizendo que criptoativos não são regulados, e facilitam o tráfico de drogas e outras atividades ilegais.

Eleições nos EUA

É difícil apontar exatamente se o mercado já havia iniciado uma tendência de baixa, e a fala de Trump acelerou o processo, ou se houve efetivamente uma reversão após aquela data. De qualquer maneira, é inegável que uma queda de 20% ocorreu nos 5 dias seguintes.

Por este motivo ressaltamos a importância de elaborar uma carteira de investimentos diversificada. Acompanhe as dicas de nossos especialistas para reduzir o risco, adaptando-se ao seu perfil, horizonte e objetivos.

Por que eleições nos EUA influem tanto?

Para início de conversa, o país conta com um Produto Interno Bruto de 22 trilhões de Dólares, que equivale a soma do Japão, Alemanha, Reino Unido, Índia, França e Itália.

Eleições nos EUA

Para completar o cenário de domínio, a moeda norte-americana é responsável por 62% das reservas internacionais dos países. O Dólar é a principal moeda utilizada nas emissões internacionais de dívida, inclusive por parte das empresas.

Eleições nos EUA

Por conta dessa dominância econômica, qualquer mudança nos rumos da maior economia do mundo traz impactos significativos nos demais mercados. Em ambientes de incerteza, investidores buscam proteção em ativos considerados menos arriscados.

Por incrível que pareça, os Títulos do Tesouro norte-americano são vistos como um dos ativos mais seguros em existência. Ou seja, o Dólar se fortelece mesmo quando há um risco originado no próprio país. De forma similar, o ouro tem funcionado como investimento de proteção, inclusive por países e agências inter-governamentais.

Federal Reserve (FED) e sua importância

De forma análoga ao Banco Central Brasileiro, a função do Federal Reserve (FED) é garantir a política monetária do país, e isso inclui o controle da moeda através da taxa de juros, leilões de Títulos da dívida, além das regras para exigências de depósitos nos bancos.

Quando o FOMC, comitê do FED que decide a taxa de juros, acena com políticas expansionistas, injetando dinheiro nos mercados, a reação ao redor do mundo é quase instantânea. Tais medidas funcionam como um subsídio econômico, portanto é normal que os demais países acompanhem tal movimento.

Embora exista uma independência entre o Federal Reserve (FED) e a Presidência, quem decide o orçamento é o Poder Executivo. Desta forma, quando são anunciados pacotes trilionários de salvaguardas, só cabe ao Tesouro e FED executar tais políticas.

Ao contrário do resto do mundo, os Estados Unidos são exportadores de dívida pública, já que estes títulos de dívida pública, e parte relevante do próprio Dólar, estão nas mãos de estrangeiros.

Eleições nos EUA

Impacto do FED nas criptomoedas

Não importa como o mercado enxerga o Bitcoin e criptomoedas. Quando há um movimento sincronizado expansionista de forma global como este causado pela pandemia do Coronavírus, o preço dos ativos reage positivamente. Mais dinheiro em circulação reflete desde o preço dos alimentos e serviços, até imóveis e ações de empresas.

A verdade é que usualmente os mercados não são preto e branco, até mesmo por conta das diferentes necessidades de cada investidor. Pessoas que vivem em países com moedas inflacionárias enxergam no Bitcoin e criptomoedas uma proteção, enquanto investidores de países com moeda forte querem fugir dos juros negativos, procurando oportunidades de renda.

O crescente mercado de aplicações de finanças descentralizadas (DeFi), por exemplo, é um excelente exemplo de demanda por remuneração em Dólar de ativos parados. Enquanto os bancos e títulos de dívida apresentam um juro real negativo, aplicações de empréstimos p2p (direto entre as pessoas) chegam a pagar 10% ou mais ao ano.

Por este motivo, quando o governo norte-americano eleva os gastos e obriga do Federal Reserve a colocar mais dinheiro em circulação, há uma corrida para as mais diversas classes de ativo em busca de retorno. Desta forma, as criptomoedas saem valorizadas, tanto por conta de sua escassez digital, quanto por oportunidades de ganhos em capital de risco.

No início de 2020 divulgamos um material mostrando que a queda nas taxas de juros seria favorável aos investimentos alternativos, e em julho tivemos o prazer de realizar o acerto financeiro do primeiro Token de Consórcio lançado pelo MB Digital Assets. O ganho equivalente para quem entrou no início da operação foi de 9,3% ao ano.

Rússia, eleições, e Bitcoin

Em meados de 2018, diversos órgãos de inteligência dos Estados Unidos, concluíram que agentes do governo russo interferiram no processo eleitoral do país em 2016, buscando favorecer o então candidato Donald Trump, do Partido Republicano. O rastro encontrado? Movimentações de carteiras de Bitcoin, além de endereços IPs oriundos da Rússia.

Os valores pagos em Bitcoin foram utilizados para contratar servidores usados para divulgar informações roubadas do Partido Democrata, ocultando identidades dos divulgadores. A acusação foi realizada na esfera federal, pelo vice-Procurador Geral dos EUA, Rod Rosenstein.

Os governos perceberam nas criptomoedas uma oportunidade de financiar atividades secretas, e até mesmo como uma fonte de receita adicional. Hackers da Coréia do Norte, ligados ao ditador Kim Jong-un, são apontados como principais autores de roubos que superam 500 bilhões de dólares.

É seja difícil prever qual será a estratégia dos governos utilizando criptomoedas como novas fontes de receita, que pode ocorrer através da mineração utilizando recursos do Estado. O fato é que criptomoedas ganharam um status de investimento nos últimos quatro anos, portanto devem constar de alguma maneira nas campanhas, mesmo que seja para o candidato defender sua posição de busca por maior regulação.

A coincidência dos halvings com eleições

A redução nos incentivos de novos Bitcoins aos mineradores, conhecido como halving, ocorre a cada 210.000 blocos, e assim como as eleições presidenciais, ocorre a cada quatro anos. O halving de 2020 ocorreu em meados de maio, portanto alguns meses antes das eleições. Nas eleições de Trump em 2016, o evento deu-se em julho.

Alguns afirmam que isto foi proposital, uma jogada planejada por Satoshi Nakamoto, o inventor do Bitcoin. Embora não seja possível realizar alguma análise para descobrir se há fundamento nesta afirmação, é fato que em ano eleitoral os investidores buscam ativos de proteção.

É importante lembrar que embora seja considerado um ativo de alto risco por alguns, sua volatilidade, medida técnica de variações históricas, está num patamar muito próximo do S&P500, principal índice das bolsas de valores nos EUA.

Eleições nos EUA

Note no gráfico acima como era normal uma volatilidade de 60 dias de 70%, enquanto no S&P500 dificilmente ultrapassava os 20%. No entanto, isto mudou nos últimos quatro meses, quando as ações de empresas listadas nos EUA passaram por oscilações mais fortes causadas pela crise e intervenções dos Bancos Centrais.

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Trump nas pesquisas vs. preço do Bitcoin

Existem algumas casas de aposta tradicionais no Reino Unido que possuem mercados onde é possível estimar as chances de vitória de cada um dos candidatos. Abaixo estão as probabilidades calculadas da reeleição de Trump, de acordo com o site odds.watch.

Eleições nos EUA

Embora não exista uma correlação direta entre as chances de Trump e o valor de mercado das criptomoedas, é possível afirmar que números acima de 45% ou 50% são ligeiramente negativos, tendo em vista o histórico de viés regulatório forte, e de medidas contrárias a inovação durante o atual governo.

O episódio da stablecoin Libra, encabeçada pelo Facebook, deixou claro que qualquer tentativa de sistemas alternativos ao Dólar será combatido de todas as formas possíveis. Senadores norte-americanos chegaram a enviar cartas às empresas Visa, Mastercard e Stripe, afirmando que caso continuassem apoiando a associação Libra, iriam sofrer uma fiscalização maior dos reguladores.

Joe Biden e seu impacto nas criptomoedas

Jeff Wilser, autor de uma biografia sobre Joe Biden, principal concorrente à candidatura pelo Partido Democrático, afirma que foco na segurança digital é algo que permeou sua carreira política. Jeff lembra que apesar das gafes e falta de conhecimento sobre blockchain, Biden de 77 anos leva muito à sério este assunto.

Quando o jornal Washington Post fez uma pesquisa sobre segurança digital dos candidatos do Partido Democrático, foi justamente Joe Biden que destacou-se na qualidade técnica da equipe, uso de Fator Adicional de Autenticação (2FA) em todos os dispositivos, além de treinamento constante.

A preocupação com ataques cibernéticos de Joe Biden poderia levar à medidas mais extremas sobre criptomoedas, porém isso não pode ser considerado positivo ou negativo de antemão. É preciso lembrar que mesmo na China, um país onde há sérias restrições para uso da internet, não é possível impedir a propagação dos blocos da rede Bitcoin.

Eleições nos EUA e impacto no Real Brasileiro

Outro aspecto que deve ser considerado, especialmente para quem opera criptomoedas no Mercado Bitcoin e demais exchanges nacionais, é o Dólar. Quando os investidores desconfiam que a crise irá se acelerar ou durar mais que o esperado, é natural que ocorra uma fuga de capitais de países emergentes como o Brasil.

Neste cenário há uma forte desvalorização da moeda local, o Real (R$). Como o Bitcoin e demais criptomoedas são majoritariamente negociadas em moeda forte como Dólares, Euros e Ienes, há uma queda na cotação em Reais. Por este motivo, investidores no Brasil devem tomar especial atenção às eleições.

Mesmo em momentos de estabilidade na cotação internacional do Bitcoin, é possível termos grandes variações no Brasil por conta da mudança no câmbio. Quem possui valores em Reais (R$) no Mercado Bitcoin pode se proteger de eventuais desvalorizações através da stablecoin USD Coin (USDC).

USD Coin (USDC) é uma stablecoin 100% lastreada em Dólar, uma iniciativa da Circle e da Coinbase, empresas reguladas conforme leis norte-americanas. Os Dólares equivalentes de cada USDC estão depositados em contas bancárias nos EUA, atestado pela empresa de auditoria Grant Thornton LLP.

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