Por que o Bitcoin existe?

Praticamente todo mundo já ouviu falar sobre, seja numa notícia ou através de algum conhecido. Mas qual a verdadeira proposta de valor dessa tecnologia, que iniciou uma nova forma de transacionar valor pela internet e tem feito diversos especialistas ao redor do mundo repensar o que, de fato, é dinheiro? Por que o Bitcoin existe? Esse texto busca trazer respostas a essas perguntas a partir de uma análise do paper de Satoshi Nakamoto, criador do Bitcoin, onde ele expõe os problemas que ele identificou nos sistemas de pagamento tradicionais e o motivaram a criar sua solução. Sabendo o motivo da existência do Bitcoin, o leitor entenderá como a tecnologia entrega valor aos seus usuários, e poderá julgar se vale a pena possuir frações da criptomoeda, além do preço como motivador.

Comprar produtos e pagar por serviços pela internet é algo cada vez mais comum em nossa sociedade. A cada dia que passa, surgem mais opções do que é possível adquirir online. As vantagens que esse formato de compra oferece, como comodidade e preços mais atrativos e a aderência do público, deixam claro que o comércio eletrônico veio para ficar. As empresas que optam por oferecer seus produtos e serviços online necessariamente precisam de um sistema para processar os pagamentos realizados por seus clientes. Geralmente essa atividade fica na responsabilidade de terceiros, que são instituições financeiras especializadas nessa finalidade. E foi na dependência dessas empresas para processar os pagamentos online que Satoshi identificou uma oportunidade de melhoria.

O principal problema que ele observou foi a fraqueza inerente ao modelo baseado em confiança, que é característico das instituições financeiras. Para cada transação realizada online, o usuário deve confiar que a empresa que processa os pagamentos irá debitar o valor correto de sua conta e creditar o mesmo valor na conta do destinatário. E que isso só aconteça uma única vez, evitando o gasto duplo. Deve confiar também que o sistema de segurança dessa instituição seja robusto o suficiente para manter protegidos o dinheiro e os dados de seus clientes. Mesmo realizando essas atividades corretamente, eventualmente são realizadas transações fraudulentas, como no caso de alguém ter o cartão de crédito e senha roubados e o criminoso realizar compras em nome da vítima. Isso agrega a essas instituições também a responsabilidade de mediação de disputas e, como consequência, torna toda transação realizada necessariamente reversível.

O custo de agir como um mediador agrega um custo na atividade de processamento das transações. O aumento do custo, repassado através das taxas de utilização do serviço, desincentiva o usuário a realizar transações de valores muito baixos, no caso de centavos, inviabilizando a ocorrência de determinadas transações. Quando o pagamento acontece para um tipo de serviço que não pode ser revertido, os custos gerados são ainda maiores, uma vez que os recursos consumidos na atividade não podem ser reutilizados caso a transação seja estornada.

Outra fragilidade é não ser possível saber se determinada transação é fraudulenta antes que ela aconteça e isso agrega um risco para cada venda realizada online. O vendedor nunca sabe com certeza se aquela venda que ele realizou hoje será, de fato, contabilizada como uma receita no fechamento do final do mês. Tudo pode acontecer. Para tentar minimizar uma possível perda, é possível desenvolver um algoritmo complexo de análise de risco de clientes, sendo necessário a coleta de um grande volume de informações pessoais. Mesmo assim, certa porcentagem de fraudes são encaradas como inevitáveis.

Esses custos e riscos de pagamento podem ser evitados com o uso de dinheiro físico, mas até então não havia sido criada uma solução para realizar pagamentos na internet sem a necessidade de uma terceira parte confiável. Foi pensando nesses problemas e necessidades que Satoshi criou o Bitcoin.

Para resolver os problemas que ele identificou seria preciso resolver a questão da confiança em intermediários. Para isso ele utilizou a criptografia e rede peer-to-peer para criar uma rede de pagamentos segura e descentralizada. Nesse formato, as transações poderiam espelhar a praticidade do uso do dinheiro físico ao acontecer diretamente entre os usuários e também ter a propriedade de ser irreversíveis. Essa última característica gera benefícios para os vendedores os protegendo de fraudes, pois sem o risco de estorno das transações recebidas eles têm maior segurança ao receber pagamentos online e podem dispensar completamente a necessidade de solicitar muitas informações pessoais de seus clientes, exatamente como acontece quando recebem dinheiro em espécie. Retirando o custo de intermediação, os custos de realizar transações diminuem, gerando incentivo para o envio de pequenos valores e abrindo portas para novos modelos de negócio que antes eram inviáveis.

O problema de gasto duplo foi resolvido carimbando cada transação com a data e hora do momento da criação da transação e com o compartilhamento dessa informação com todos os computadores conectados na rede peer-to-peer. Dessa forma é criada uma redundância acerca da informação compartilhada, onde todos têm ciência do estado atual da rede, simultaneamente. Se alguém tentar gastar o mesmo valor duas vezes, todos saberão que é uma tentativa de fraudar a rede e irão invalidar a transação.

Construir uma solução que dispensa intermediários trouxe mais responsabilidade para os usuários dessa rede, pois a custódia dos valores ficam totalmente nas mãos de seus usuários. Quem usa bitcoin tem a posse de seu patrimônio, não o direito sobre propriedade que alguém está mantendo seguro em seu nome. Literalmente, cada usuário se torna seu próprio banco ao possuir a criptomoeda. E dentre as mudanças que o sistema traz, essa caracteriza uma verdadeira mudança cultural no que se refere a segurança digital.

Com isso, podemos responder a pergunta “Por que o Bitcoin existe?”: para viabilizar transações online oferecendo os benefícios do dinheiro físico. Agora é possível enviar baixos valores pela internet de forma imutável, diretamente entre as partes dispensando os intermediários, com baixo custo, de forma segura e transparente, sem precisar fornecer informações pessoais para terceiros e ter a posse de fato da unidade de valor. Cada característica dessa foi pensada propositalmente para resolver problemas que agora você sabe quais são e porquê. Talvez usar a tecnologia seja uma solução para você, talvez não. Cabe a cada um decidir. O preço da unidade de bitcoin é o mercado quem decide, mas a essência permanece, seja na alta ou na baixa do mercado. E, independente da escolha voluntária de cada um, agora temos mais uma opção de transferência de valor à disposição de todos.