Transação de Bitcoin: tudo que você precisa saber

No dia 5 de fevereiro de 2020, a rede Bitcoin alcançou um indicador impressionante: foram 500 milhões de transações aprovadas desde o início de seu funcionamento, em 2009. São mais de 10 anos operando sem nenhuma falha em seu código, e cada uma dessas transações foi devidamente reconhecida e validada. Para entender como isso é possível, e como funcionam as transações na rede, vamos primeiro explorar o que é o Bitcoin.

Antes de começar, é preciso fazer uma distinção importante. Existe o protocolo Bitcoin, que é a rede opera de forma descentralizada - isto é, não existe uma pessoa ou entidade que controle as transações ou emissão. Seus pagamentos em bitcoin não possuem restrição geográfica, podendo ser feitos de qualquer ponto no planeta para qualquer pessoa. O sistema foi criado em 2008 por Satoshi Nakamoto - pseudônimo de uma pessoa que até hoje permanece anônima. Em 3 de janeiro de 2009, no auge da crise financeira de 2008, começou a operar.

Como parte dessa rede temos também o bitcoin como token, que a criptomoeda propriamente dita. É a esse segundo elemento a que estamos nos referindo quando falamos que “fulano tem 0,543 bitcoins”, e representa o montante de tokens. Apesar de ambos os termos serem chamados de “bitcoin”, o costume é se referir à rede como Bitcoin, com “B” maiúsculo e ao token como “bitcoin”, com “b” minúsculo. A distinção é importante para entender as transações de bitcoin e suas características.

O sistema Bitcoin

Todo o sistema bitcoin se baseia na tecnologia blockchain, que nada mais é do que um livro razão global, responsável por controlar os saldos de todos os endereços de uma criptomoeda - no caso, o bitcoin - ao longo do tempo. Para entender as transações de bitcoin, é preciso estar atento especialmente ao conceito de endereço.

Um endereço é composto por duas chaves: uma pública e uma privada. A chave pública é a que te identifica em relação aos outros integrantes da rede. É como se fosse sua conta bancária - algo que precisa ser público para enviar e receber recursos de outros.

A chave privada é a sua senha. Usando a chave privada é possível movimentar a chave pública, assim como seria possível movimentar uma conta bancária. Esse conhecimento é essencial na hora de saber como funcionam as transações entre carteiras.

O saldo no endereço

O saldo em qualquer endereço de Bitcoin é público. Por exemplo, ao consultar o endereço 399jCwmobQzpjP9hd4WEGXbhtLMv47gr6q vemos que ele possui um saldo de 3,35 bitcoins, decorrentes de 20 transações.

Aliás, esse endereço usado no exemplo pertence ao Mercado Bitcoin, e foi criado para arrecadar fundos para o Hospital de Cirurgia de Sergipe. Os recursos serão destinados à ampliação do número de leitos de UTI no hospital!

Assim, é possível consultar o extrato de qualquer endereço de Bitcoin. A grande questão é que não é possível a um terceiro a quem pertence o endereço - qualquer pessoa que consulte esse endereço aleatoriamente não pode saber que ele está associado ao Mercado Bitcoin e nem que é parte de uma campanha de doações.

Uma transação de bitcoin

A vida de uma transação de Bitcoin passa por uma série de passos:

1. Requisição:

uma requisição de transferência é feita por um usuário à rede. Suponha que você gostaria de comprar um pão de queijo por R$5,00, e vai pagar em bitcoin. O vendedor fornece a você o endereço dele, você insere o destinatário e a quantidade de bitcoins necessárias para realizar o pagamento;

2. Verificação:

no caso da rede Bitcoin, para verificar se a transação é válida serão considerados dois parâmetros: se você possui saldo suficiente e se a chave privada usada para movimentar seus fundos é válida ou não. Esse é um processo bem rápido, que demora poucos segundos;

3. Adição a um bloco:

a transação é juntada a um bloco junto com várias outras, e mineradores irão competir para resolver o quebra cabeça daquele bloco, buscando uma recompensa de novos bitcoins criados para o vencedor. É possível visualizar esse processo de adição de transações a um bloco no site BitBonkers;

4. Adição do bloco ao blockchain:

uma vez que algum minerador tenha resolvido o quebra cabeça, o bloco é adicionado à sua versão do blockchain, que será transmitida aos outros participantes da rede Bitcoin, que atualizarão sua versão do blockchain com a versão mais longa sendo transmitida. O quebra cabeça de cada bloco é criado a partir de um código, e sua dificuldade é proporcional ao poder de computação da rede Bitcoin no momento de criação - contudo, o código cria um quebra cabeça que demora, em média, 10 minutos para ser resolvido. Ou seja, a cada cerca de 10 minutos um bloco é adicionado à rede. Essa é a primeira confirmação da transação;

5. Adição de próximos blocos:

uma vez que aquele bloco tenha sido aceito como válido, a rede irá competir pela solução do próximo. A cada bloco subsequente que é adicionado à rede, a transação tem mais uma confirmação.

O token bitcoin

O token bitcoin pode ser usado como pagamento em diversas lojas físicas e sites na internet, bastando que o comprador possua o saldo adequado e o vendedor possua um endereço Bitcoin. Esse mapa mostra ATMs e lojas que aceitam bitcoin no mundo todo. Apesar de ser usado em transações, possui uma série de características que o diferenciam e moedas convencionais, como o real ou o dólar:

Descentralização

Nenhuma pessoa ou instituição controla a rede Bitcoin. Todos os tokens guardados em wallets próprias são totalmente controlados pelo proprietário, e ninguém pode movimentá-los sem a chave privada, idealmente de conhecimento apenas do titular, ou de poucas pessoas próximas a ele. A rede é gerida por meio de computador que executam o programa do Bitcoin, disponível publicamente, e aberto a sugestões de qualquer um. O código em si é gerenciado por um grupo de programadores voluntários. Caso tenha interesse em rodar o código, e ajudar a rede a verificar e aprovar transações, é possível baixar o programa aqui.

Limitação de emissão

Moedas nacionais teoricamente não possuem limite de emissão. Claro que é preciso cuidado por parte dos governantes, para não criar inflação desmedida. Caso o governo erre na gestão é possível ver notas como a de 100 trilhões de dólares do Zimbábue.

Contudo, bancos centrais podem injetar recursos novos na economia - vimos isso na prática durante a pandemia do COVID-19, com governos injetando trilhões de dólares na economia. Ainda, existem outros mecanismos que os bancos centrais possuem para controlar a moeda.

Ao contrário das moedas nacionais, o código da rede Bitcoin possui uma limitação programada de emissão no valor de ₿ 21.000.000. Ou seja, só podem ser emitidos 21 milhões de bitcoins em toda a história da rede. Além disso, ninguém pode controlar o suprimento - já foram emitidos cerca de 18,3 milhões de bitcoins, dos quais estima-se que pouco mais de 16,3 milhões estejam em circulação. A diferença são bitcoins “perdidos”, ou seja, de carteiras que não são movimentadas há muitos anos, e que assume-se que os donos perderam a chave privada. Dentre esses 2 milhões de moedas temos também bitcoins “manchados”, que exploraremos melhor a seguir.

Identificação de movimentação

Não conseguimos rastrear notas de moedas nacionais, como reais, dólares ou euros. É até possível que essas notas tenham sido usadas em atividades ilícitas - um estudo mostrou que 90% das notas de real possuem vestígios de cocaína.

Em de bitcoins, é possível saber exatamente que moedas foram envolvidas em atividades ilícitas. Por que não são nada mais do que linhas específicas de código, é possível rastrear todos os bitcoins até sua origem, e todo o caminho ao longo de sua existência.

Por exemplo, suponha que uma carteira online foi hackeada, e 10 BTC foram roubados, e transferidos para a carteira do hacker. Esses bitcoins podem ser “marcados” como produto de roubo, e quem quer que tenha efetuado o roubo terá dificuldade de movimentar os esses bitcoins “manchados”.

Casas decimais

No nosso dia a dia estamos acostumados a lidar com moedas divididas em até duas casas decimais. Por exemplo, podemos dizer que um café custa R$3,50 na padaria. Mesmo em situações comerciais a exceção são os postos de gasolina, com alguns deles denominando o preço de combustíveis até 3 casas decimais.

Os investidores mais arrojados também podem apontar que pares de moedas em mercados de Forex podem variar em “pips”, ou “percentage-in-points”, ou uma unidade na quarta casa decimal. Ou seja, a menor variação que um par como USD/EUR (dólar/euro) pode ter é de US$0,0001.

Mesmo assim, não chegam aos tokens de bitcoin, que podem ser divididos em até 8 casas decimais. Ou seja, a menor unidade do bitcoin é ₿ 0,00000001 - unidade popularmente conhecida como “satoshi”, em homenagem ao criador da criptomoeda. Isso quer dizer que mesmo com o preço do Bitcoin na casa dos R$30 mil nas últimas semanas, um satoshi vale apenas R$0,0003, permitindo microtransações de forma até mais fácil do que as moedas nacionais.

Transações na rede

Vimos anteriormente como funciona uma transação em bitcoin. Agora que entendemos melhor características do token bitcoin, é preciso saber que transações feitas com ele possuem algumas características particulares. É importante que o usuário esteja familiarizado com elas antes de realizar transações, para que possa usar adequadamente a rede.

Confirmações

Afirmamos que os mineradores confirmam as transações, adicionando-as a um bloco e resolvendo o quebra cabeça gerado pelo bloco. Contudo, apenas uma confirmação é uma evidência fraca de que uma transação foi realizada de forma adequada.

Isso por que o fato de um minerador ter achado a solução de um bloco não significa necessariamente que ele será eternizado no blockchain. Se outros participantes da rede constatarem que aquele bloco contém uma transação inválida, por exemplo, eles rejeitarão o bloco. Assim, a competição pelo bloco, que contém ou não as mesmas transações, começa novamente.

É preciso lembrar que cada conformação subsequente, depois da primeira, faz com que o poder computacional exigido para adulterar o blockchain seja progressivamente mais alto. A matemática por trás disso é complexa, e os mais curiosos podem consultar a explicação de Satoshi na página 8 do seu whitepaper.

O fato é que depois de 6 confirmações é o número necessário para garantir que a chance de a transação ser válida seja de 99,9%, suficiente para a vasta maioria dos usuários. Reverter uma transação de 6 blocos iria requerer recursos monstruosos em energia e poder computacional, o que torna a reversão impraticável e sem sentido econômico algum. Por isso, a regra geral é esperar 6 confirmações - cerca de 1 hora - para garantir que uma transação é plenamente válida.

Esse é um dos principais motivos pelo qual uma transação de bitcoin é segura. Conformações subsequentes diminuem cada vez mais a chance de uma transação ser revertida ou ser considerada inválida. Hoje em dia, alguém que queira reverter transações de mesmo alguns dias atrás teria que gastar provavelmente centenas de milhões de dólares, o que torna economicamente inviável esse tipo de operação.

Imutabilidade

Quando temos problemas em uma transação de cartão de crédito, usualmente podemos pedir estorno ao nosso banco. Talvez a transação tenha sido realizada de maneira fraudulenta, ou o próprio consumidor errou.

Contudo, transações feitas com bitcoins são imutáveis, e não podem ser revertidas. Não existe um intermediário a quem se possa recorrer, para indicar que transação deve ser desfeita. Uma vez que a transação tenha sido registrada no blockchain, permanecerá lá enquanto a rede estiver funcionando.Não é possível nem contatar a parte que detém o outro endereço, pois é muito difícil para usuários comuns saberem a identidade uns dos outros.

Ou seja, mandar fundos para o endereço 38zV1uySXgv4NLueuJxpXsp3sABR6VFBQs (endereço errado) ao invés do 38zV1uySXgv4NLueuJxpXsf3sABR6VFBQs (endereço correto) pode fazer toda diferença. Lembrando que esse é o endereço da campanha do Mercado Bitcoin para arrecadar fundos para o Hospital de Cirurgia de Sergipe!

Por isso, é sempre importante prestar muita atenção ao fazer transferências entre endereços de Bitcoin. Claro que a maior parte das transações é feita com recursos de “CTRL+C e CTRL+V”, o que dificulta a existência de algum erro. Além disso, endereços de Bitcoin são tradicionalmente associados a QR Codes, e basta escanear o código para inserir o endereço correto de transação.

Transações em Bitcoin são anônimas?

Quando fazemos uma transação com cartão de crédito ou débito, vários participantes dessa cadeia de pagamentos - como a empresa que opera a bandeira e o banco emissor - têm acesso às informações da transação. Isso se dá principalmente por questões de prevenção à lavagem de dinheiro e terrorismo.

Por outro lado, quando fazemos uma transação em dinheiro vivo, existe anonimidade total. É impossível rastrear uma transação em dinheiro, e nem vendedor nem comprador precisam se conhecer ou usar intermediários.

Existe uma impressão geral de que transações com bitcoins também são anônimas, o que é apenas parcialmente verdadeiro. As transações em bitcoin são feitas usando um pseudônimo, que é o endereço na rede. Como dissemos, quando uma ordem é à rede, os usuários não se identificam - os mineradores apenas vasculham todo o histórico do blockchain e confirmam se aquele endereço possui o saldo necessário para a transação, e se a autorização correta for fornecida para movimentar aqueles fundos. O usuário da rede não conhece quem incluiu sua transação no blockchain, e nem o minerador sabe de quem é a propriedade dos endereços envolvidos.

Contudo, já existem vários métodos para descobrir quem está por trás de cada endereço. Além disso, todas as corretoras de criptomoedas sérias possuem mecanismos sofisticados de identificação de clientes e regras rigorosas contra a lavagem de dinheiro e uso indevido de recursos. Então, os usuários de bitcoins quase sempre serão identificados na etapa de transformação de seus reais em bitcoins e vice versa.

Ou seja, na prática, é como se as transações fossem conduzidas com um pseudônimo. Sua identidade está camuflada, mas pode ser descoberta usando os métodos corretos. O bitcoin definitivamente não é anônimo.

Vantagens de transações com Bitcoin

A principal vantagem das transações com bitcoins é que são significativamente mais baratas do que transferências de valor feitas por métodos tradicionais. Ainda são raros os bancos que não cobram taxas de TED e DOC, mesmo em transferências nacionais. Além disso, transferências internacionais podem ser custar até 20% do valor total da transação em casos extremos.

Mesmo quando falamos em meios de pagamentos, as taxas podem ser salgadas. Muitas vezes não reparamos, por que o custo recai sobre o comerciante, mas cartões de crédito podem chegar a cobrar 2 ou 3% de cada transação. Administradoras de vales refeição podem ficar com uma parcela de até 13% do valor da compra. Com certeza são custos significativos.

No sistema Bitcoin, a taxa paga é a dos mineradores. A remuneração serve como estímulo para inclusão mais rápida da transação em questão nos próximos blocos, e confirmações mais ágeis. Apesar de existir, essa taxa não chega nem perto dos valores cobrados no mercado tradicional. Em janeiro de 2020, uma baleia - denominação dada aos investidores com grande quantidade de bitcoins - transferiu US$1,1 bilhão pagando uma taxa de US$80, ou 0,000007%.

Essas taxas são variáveis - quanto mais movimentada a rede, maior será o custo, por que o usuário deverá remunerar melhor os mineradores, para que sua transação seja aprovada na frente de outras que oferecem uma taxa menor. Também depende do tamanho da transação, claro. No final de 2017, quando o preço do bitcoin aumentou drasticamente para quase US$20 mil e o ativo recebeu atenção global, as taxas de transação chegaram a uma média de US$37. Contudo, situações como essa são a exceção, e a regra ainda são custos de mineração abaixo dos US$0,50 por transação.

Cuidados ao realizar uma transação de bitcoin

Verificar o endereço

Transações entre endereços de bitcoin são irreversíveis. Por isso, é preciso muito cuidado na hora de realizar qualquer tipo de operação. Confira várias vezes se o endereço de envio é correto, e se todos os números de letras batem - lembrando que os endereços são “case sensitive”, ou seja, existe diferenciação entre letras maiúsculas e minúsculas.

Outro ponto ao qual o usuário deve se atentar é o endereço correto de criptomoeda. Existem vários casos de pessoas que perderam seus fundos transferindo para endereços de criptomoedas diferentes. Por exemplo, caso, por um descuido, alguém transfira bitcoins para uma carteira de Tether, a transação será inválida, claro, e como é imutável os recursos são perdidos.

Verificar a taxa de transação

A taxa de transação varia conforme a prioridade que o cliente requer. Quanto mais rápido alguém deseja que sua transação seja confirmada, maior será o valor que deve pagar aos mineradores. No caso do Mercado Bitcoin, a taxa de confirmação é fixa em ₿0,0004.

Confirmações

Claro, o número de confirmações exigidas depende muito do que está sendo negociado. Ao comprar um pão de queijo, geralmente a validação inicial já é suficiente. Se a pessoa está vendendo um apartamento e recebendo em bitcoins, é recomendável que se espere até mais do que as 6 transações da regra geral.

O Mercado Bitcoin exige, para depósitos em criptomoedas, 3 confirmação da transação na rede Bitcoin. A exigência de confirmações varia de criptomoeda para criptomoeda.
A título de curiosidade, podemos ver abaixo a primeira transação feita com bitcoins, em 3 de janeiro de 2009, que possui mais de 600 mil confirmações.

Conclusão

Uma transação de bitcoin pode ser muito vantajosa, especialmente quando comparadas às alternativas tradicionais em termos de taxas. Contudo, também requer cuidados. Algumas particularidades foram adicionadas às transações de bitcoin para que a rede pudesse funcionar de maneira descentralizada. Esperamos que esse artigo tenha ajudado a entender melhor como funcionam as transações de bitcoin! Aproveite para conhecer a plataforma do Mercado Bitcoin.

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