Você sabe como a fungibilidade impacta as criptomoedas? Veja aqui!

O conceito de fungibilidade pode parecer simples à primeira vista, porém suas implicações no mundo das finanças são cruciais. Seria quase impossível negociar ouro, por exemplo, se cada um apresentasse barras de qualidade ou peso diferentes. Por este motivo, existe uma padronização, para tornar o bem fungível.

Fungibilidade é esta característica que permite substituir um bem por outro da mesma espécie, qualidade e quantidade, sem prejuízo para as partes. São exemplos de bens fungíveis: notebooks, dinheiro, milho, ações da Petrobras, e diamantes.

Ou seja, para um bem ser fungível, ele não precisa necessariamente ser durável e sólido. No entanto, caso se tratar de um material perecível, por exemplo, leite, torna-se necessário uma especificação do padrão de qualidade.

Mas afinal, como a fungibilidade afeta as criptomoedas? Todo instrumento financeiro é fungível? Vamos percorrer a história do dinheiro para entender a importância desta característica, e como isto pode ajudar ou atrapalhar o desenvolvimento das moedas digitais.

Quer aprender como comprar Bitcoin no Mercado Bitcoin? Este outro artigo explica por que investir em Bitcoin, seus riscos, além do passo-a-passo do trade de criptomoedas.

A origem do dinheiro

Nick Szabo explica em seu artigo “Saindo da concha: as origens do dinheiro” que conchas, peles, e dentes de animais foram encontrados em pingentes delicadamente esculpidos há mais de 10.000 anos nos EUA, enquanto na Europa e África existem peças com mais de 40.000 anos.

Mais recentemente, as colônias Inglesas do século 17 na Nova Inglaterra (atual EUA) usavam como principal meio de troca as conchas, amarradas como pingentes em um colar, ao invés dos escassos metais com estampa de líderes políticos, trazidos da Europa.

Na verdade, se tratava de um tipo específico de conha, ‘wampum’, e algumas regiões se especializaram na tarefa de coleta na natureza e confecção de colares. O fato é que estas conchas se tornaram a moeda oficial na Nova Inglaterra, e os colonos finalmente passaram a ter um meio de troca em quantidade suficiente.

O problema é que os Europeus começaram a explorar estas conchas em larga escala, inundado sua oferta na América do Norte, forçando a todos a abandonar tal moeda. Outras regiões tentaram implementar conchas similares como meio de troca, porém o avanço das técnicas de coleta e manufatura evoluíram rápido.

Desta forma, o resultado era sempre o mesmo: hiperinflação. O excesso de oferta fez a moeda perder valor a ponto de não servir mais como meio de troca ou reserva de valor. Embora fosse durável e fungível, ou seja, intercambiável, as conchas não eram suficientemente escassas.

A falácia do escambo

Muitos livros de história afirmam que o escambo, a troca entre produtos, foi a principal forma de comercialização de produtos e serviços durante séculos antes da cunhagem de moedas. No entanto, o escambo requer uma coincidência de interesses, além do problema de equivalência.

Quantas laranjas equivalem a uma galinha? Quem teria interesse em 2 litros de leite, sem que houvesse uma geladeira? É verdade que foram encontrados registros históricos de tabelas para trocas entre animais. No entanto, o escambo não funciona em larga escala, e por este motivo formas primitivas de dinheiro sempre existiram.

Estes itens colecionáveis podem parecer aleatórios, porém havia uma razão para a escolha de cada objeto por determinado povo. Estes itens funcionavam para transferência de riqueza, herança, comércio voluntário, casamentos, penalidades, e até mesmo, tributos.

Isto não significa que tais colecionáveis eram utilizados em pequenas trocas no dia-a-dia, porém o fato de ser durável, garantia que, quando necessário, tais itens poderiam ser utilizados para acertos de dívida, ou transferências maiores.

Estes estudos provam que o dinheiro, mesmo que primitivo, através de itens colecionáveis, poderiam não ser utilizados no dia-a-dia, mas eram cruciais para acertos maiores, heranças, e até penalidades por não seguir as normas da tribo.

A importância da fungibilidade

Dinheiro não é uma invenção da era moderna, e seu uso de forma padronizada teve seu início cerca de 3.000 anos atrás. Pesquisadores afirmam que a primeira moeda efetivamente cunhada foi criada no reinado de Aliates, na atual Turquia, e era composta por uma liga de ouro e prata.

Estáter
Estáter, moeda que estampava o símbolo da família real da Lídia

A cunhagem de moedas permitiu a fungibilidade de metais nobres, pois havia uma composição e peso específico. Sabe-se que o ouro e prata eram utilizados como reserva de valor, mesmo que por ostentação através de joias, mais de 4.000 anos antes de seu uso como moeda.

Sua praticidade era tanta que rapidamente este mecanismo foi implementado no Oriente Médio e China, fazendo com que moedas se tornassem um importante meio de troca.

Desta forma, é possível afirmar que ouro, prata e bronze já eram utilizados como reserva de valor, porém foi sua fungibilidade que impulsionou seu uso como meio de troca, acelerando sua adoção como dinheiro.

A importância da fungibilidade em criptoativos

Arquivos digitais são duráveis, portáteis, uniformes, e divisíveis, especialmente quando distribuídos em diversos servidores ao redor do mundo. No entanto, nada disto garante sua escassez, nem tampouco fungibilidade.

O blockchain, esta tecnologia por trás do Bitcoin, solucionou o problema do gasto-duplo, ou seja, impede a duplicidade de uma transação digital. Sabemos que o Bitcoin número 18.467.844 foi minerado no bloco 644.855 em 22/Ago/2020, e seu destinatário foi o endereço 1MvYASoHjqynMaMnP7SBmenyEWiLsTqoU6. Isto ocorre por conta da absoluta transparência do blockchain do Bitcoin.

De tal maneira, embora o Bitcoin seja fungível, ou seja, não há diferenciação entre as criptomoedas, é possível que alguns grupos optem por não aceitar uma moeda oriunda de um endereço específico. O mesmo ocorre com as notas de dinheiro que contém um número de série para dificultar sua falsificação.

Em novembro de 2018 o Tesouro norte-americano determinou o bloqueio de dois endereços de Bitcoin utilizados em ataques cibernéticos por Iranianos. Embora a medida possa ter algum efeito em exchanges e intermediários localizados nos EUA, não há nada que impeça a movimentação destas criptomoedas na rede bitcoin.

Os donos destes endereços conseguem transacionar livremente com os demais usuários, trocar por outras moedas, ou até mesmo vendê-las fora dos EUA. Não há nada, absolutamente nada, que nenhum governo ou entidade possa fazer para impedir isso.

Esta é uma evidência do poder da fungibilidade do Bitcoin, pois nem a maior potência do mundo consegue bloquear uma transação ou endereço.

Saiba mais sobre o que é o Bitcoin, para que serve, e o que é uma criptomoeda.

As criptomoedas de privacidade

Algumas criptomoedas optaram por esconder os valores transferidos, e desta forma não é possível ver os saldos de cada endereço. Uma dessas moedas de privacidade é a Monero (XMR), criada em abril de 2014, que rapidamente conquistou seu espaço.

No início de 2017 a criptomoeda implementou as assinaturas em anel, utilizando um algoritmo de transações confidenciais de Greg Maxwell, desenvolvedor do Bitcoin Core. Atualmente Monero é, sem dúvidas, a solução criptográfica de código-fonte aberto com maior nível de privacidade.

Coreia do Sul e Japão decidiram banir este tipo de criptomoeda, alegando que facilitam os crimes de lavagem de dinheiro e atividades ilícitas. Não há como proibir o livre fluxo das criptomoedas, incluindo trocas entre pessoas.

Ou seja, é possível adquirir Bitcoin em exchanges ou vendedores p2p (peer-to-peer), para em seguida trocar suas criptomoedas por Monero ou outra moeda de sua escolha. A tentativa dos governos de proibir tecnologias de privacidade só mostra o nível de despreparo e desconhecimento destes legisladores.

Privacidade e fungibilidade

Tanto o Bitcoin quanto o Ethereum estão buscando soluções de privacidade, que atualmente existem de forma não-nativa, ou seja, utilizando ferramentas de CoinJoin e Mixers, que visam realizar trocas entre usuários.

Esta solução não é 100% eficaz, e existem ferramentas de rastreamento que conseguem um bom grau de acerto determinístico. Por este motivo, é possível que futuramente outras criptomoedas implementem soluções de privacidade de forma nativa, mesmo que opcional.

As exchanges e intermediadores regulados, especialmente nos EUA e Europa, são obrigados a implementar ferramentas de análise de rastreamento. O objetivo é justamente cumprir sanções e decisões das agências reguladoras internacionais em determinados endereços.

Ou seja, é incorreto afirmar que o Bitcoin não é fungível. Um banco pode recusar depósitos e transferências de determinadas pessoas ou empresas, e isto não torna a moeda Real (R$) não-fungível.

Os pilares da fungibilidade em criptomoedas

Excluindo as moedas de privacidade, o problema de fungibilidade é de conhecimento da comunidade. Por este motivo muitas soluções que devem ser implementadas nas principais criptomoedas passam por este aspecto.

Vitalik Buterin, criador da Ethereum, propôs em 2019 a criação de um Mixer, uma solução não-nativa de privacidade. Mais recentemente, Vitalik indicou que poderiam incluir a ferramenta de privacidade zk-SNARKs, utilizada na ZCash (ZEC), de forma nativa na rede Ethereum 2.0, que se encontrae em desenvolvimento.

No Bitcoin isto não é diferente, e dentre as propostas de melhorias para os próximos meses encontram-se Dandelion, que busca ocultar o caminho percorrido no envio de uma transação. Além disto, os upgrades Schnorr/Taproot, também auxiliam a ocultar as assinaturas em transações mais complexas.

Desta forma, fica claro que apesar de existir fungibilidade em criptomoedas, a questão da privacidade é mais importante. Lembra do exemplo das pessoas, empresas e contas de banco bloqueadas pela justiça? As moedas fiduciárias jamais vão conseguir chegar neste nível de fungibilidade.

Outro aspecto importante a ser considerado em criptomoedas é a questão da segurança digital. Pessoas de má-fé se aproveitam do desconhecimento técnico dos usuários, enviando links maliciosos, criando contas falsas em redes sociais, além de e-mails com origem duvidosa. Aprenda a aumentar sua segurança na internet.

Quais criptoativos têm melhor fungibilidade?

Além da Monero (XMR), que possui uma solução de privacidade nativa e obrigatória em seu blockchain, podemos citar algumas criptomoedas que utilizam outras tecnologias. Dentre elas se destacam o MimbleWimble, utilizado nas criptomoedas Grin e Beam, que encontra-se em fase de implementação na Litecoin (LTC).

Existem outras criptomoedas de privacidade, porém com diferentes níveis de sucesso neste aspecto. Destacam-se ZCash (ZEC), Komodo (KMD), Horizon (ZEN) e Zcoin (XZC), porém cada rede possui características próprias de descentralização, segurança, velocidade, privacidade, e fungibilidade.

Você sabia que de nada adianta a segurança do criptoativo, e da própria exchange, se o usuário não tomar precauções básicas através do uso de senhas fortes, antivírus, e segurança em dois fatores (2FA)? Aprenda mais sobre o que é autenticação de dois fatores.

O que define um criptoativo?

Antes de estudarmos quais as qualidades básicas para estabelecer as bases de um criptoativo, precisamos entender o que é dinheiro. Conforme mencionado anteriormente, nem sempre notas de papel ou moedas estampando rostos ilustres foram o principal meio de troca, e de armazenamento de valor.

dinheiro

Além da fungibilidade, o dinheiro precisa ser durável, portátil, divisível, uniforme, limitado, e ter um certo grau de aceitação. O criptoativo é um bem digital colecionável, portanto deve seguir as mesmas características, com exceção da aceitação.

A principal diferença do criptoativo é o fato de existir somente no campo digital, não sendo um ativo físico. No entanto, através do processo de tokenização, é possível estabelecer unidades digitais de criptoativos que representam a posse de ativos reais.

Bancos de dados descentralizados já são utilizados hoje, com sucesso, na distribuição de fatias digitais de Títulos de Precatório, de Consórcios, e de Imóveis. O MB Digital Assets já inclusive realizou a quitação integral de um destes Tokens de Consórcio.

Deste modo, os detentores destes Tokens de Títulos de Consórcio receberam os Reais (R$) proporcionais a sua fatia, registrando um ganho equivalente de 9,25% ao ano.

Leia o nosso artigo e entenda mais sobre este processo de pagamento final (liquidação) de ativos digitais.

A fungibilidade nos criptoativos

No exemplo acima, dos tokens de Títulos de Consórcio, a negociação desses ativos ocorreu de forma livre entre compradores e vendedores ao longo do processo. Isto ocorre por se tratar de um ativo digital com as qualidades de dinheiro, excluindo-se a questão da ampla aceitação.

Desta forma, podemos ver na prática a importância da fungibilidade, ou seja, a possibilidade de trocar tokens entre compradores e vendedores, sem perdas para nenhum dos lados. Fica evidente a importância desta característica no universo de criptomoedas, além da batalha para implementar mais funções de privacidade em algumas redes.

Já segue o Mercado Bitcoin no Instagram e Facebook? Em nossas mídias sociais você irá receber dicas e novidades sobre os principais criptoativos.

Post anteriorPróximo post